sábado, 3 de janeiro de 2009

A SOLUÇÃO PELA ACOLHIDA

Dom Dadeus Grings - 23.01.05

A CNBB lançou, para o quadriênio 2003 - 2006, suas Diretrizes da Ação Evangelizadora, enfatizando três planos a serem trabalhados: a pessoa, a comunidade e a sociedade. No plano da pessoa enfatiza sua dignidade e consequentemente sua acolhida. Fala da construção da identidade pessoal e da liberdade autêntica. Destaca a condição de filho de Deus, que a eleva a um pedestal de grandeza inigualável. No plano da comunidade traz à mente a fragmentação da vida e, consequentemente, a necessidade de buscar relações mais humanas. A resposta da fé cristã leva ao empenho da fraternidade, na certeza de que todos somos irmãos. No plano da sociedade, após denunciar o escândalo da exclusão e da violência, aponta para a solidariedade, tanto nas iniciativas particulares, que mostram a Igreja samaritana, com sua reivindicação de políticas públicas e na participação política.
A solução para o desafio do problema da violência e da insegurança tem uma de suas chaves na promoção da acolhida de todas as pessoas. Isto significa, especialmente, uma partilha em seu sofrimento e uma concretização de sua busca de felicidade. Esta acolhida se realiza, primeiramente, no íntimo de cada pessoa, em relação aos outros. Concentra-se na criação de sentimentos de simpatia, de compaixão, de fraternidade e de solidariedade.
De posse destes sentimentos, inicia-se o trabalho da construção de pontes. Vai-se ao encontro do outro. Inicialmente dos que são mais próximos; depois, dos que participam da comunidade; em seguida, dos que são acolhidos e mantidos por entidades filantrópicas, ajudando estas entidades a cumprir sua missão e, eventualmente, alargar seu horizonte de atendimento; e, por fim, se estende a todos os excluídos, marginalizados, sofridos, através de novas iniciativas e promoções.
A solução definitiva do problema da violência e da insegurança não será alcançada pela repressão, ou seja, opondo violência à violência, assim como não se consegue paz autêntica por meio da guerra. Volta a exortação do Papa João XXIII: "se queres a paz prepara a paz". Transposto para o nosso campo: se queres segurança promove segurança; ou se queres superar a violência não use violência!
Isto significa, em outras palavras, criar uma rede de solidariedade que perpasse todas as classes sociais, todas as categorias profissionais e atinja cada pessoa. Ninguém fique excluído da acolhida, do carinho e da solicitude. A parábola do Bom Samaritano mostra como este, ao passar junto ao homem que fora assaltado e deixado semi-morto, viu-o e teve compaixão dele. Aproximou-se e curou suas feridas. Leva-o a uma hospedaria para que os cuidados continuem a ser ministrados até sua volta. Envolve a sociedade na solicitude para com o alquebrado. Jesus conclui a parábola mandando seus discípulos fazerem a mesma coisa. Garante que nisto consiste a conquista da vida eterna, ou seja, por este gesto de acolhida e de compaixão, a própria vida adquire sentido pleno e se perpetua.
Ninguém é tão mau que não tenha algum aspecto pelo qual mereça ser estimado e acolhido. A longo andar, na senha da maldade, fica, muitas vezes, a impressão de que o mal esteja prevalecendo e que o bem se tenha exaurido. Por isso faz-se hoje necessário, devido ao intenso bombardeio dos meios de comunicação, com notícias más, crimes hediondos e terrores de toda espécie, mais do que nunca, renovar a fé no ser humano. O homem não é visceralmente mau. Foi, ao contrário, criado bom. E se isto não convencesse, sabemos que ele foi remido pelo sangue de Cristo. E é preciso dizer mais: tanto Deus amou o mundo que lhe enviou seu próprio Filho, muito amado. Ele nos vem garantir que tudo o que se fizer ao menor de seus irmãos é a Ele próprio que se faz, o que equivale a dizer que Ele retribui todo gesto de carinho e acolhida dos irmãos.
É certo que, diante da bondade e do carinho, ninguém resiste. Não há dúvida que é extremamente difícil, diante da violência ou diante das ameaças, reagir com amor, com compreensão e com compaixão. Até diria que humanamente isto é impossível. Por isso Cristo infundiu, em nossos corações, o próprio amor de Deus pelo Espírito Santo, que nos enviou. Nosso testemunho de fé é o amor e o amor se manifesta, do modo mais sublime, no perdão.

Dom Dadeus Grings - Arcebispo Metropolitano
domdadeus@terra.com.br

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