sábado, 3 de janeiro de 2009

O COSMOS

Artigo de 14 de novembro de 2004
Os gregos chamavam nosso universo de "cosmos". Viam nele uma harmonia universal. Cada coisa no seu lugar é boa e útil. Se estiver fora de lugar estorva. Afigura-se então como um mal. O exemplo típico é a orquestra. Muitos instrumentos, bem afinados, produzem uma sinfonia. Mas se algum deles desafina temos uma cacofonia. Dói no ouvido. Destoa do conjunto.
Interessante observar que os instrumentos da orquestra são diferentes e seus sons também. Para haver sinfonia não se requer que haja exclusivamente violinos. A variedade de sons, provenientes de diversos instrumentos, tanto de sopro como de corda, produz a sensação agradável da sinfonia. Mas não basta que todos os instrumentos estejam afinados e toquem a mesma música. É necessário evitar que algum deles sobressaia desmesuradamente. Não se pode colocar um microfone num único instrumento, fazendo com que sufoque os demais... Para controlar tudo isto temos o regente.
O universo tem um Criador e Regente. A própria sinfonia do universo nos leva à descoberta deste Regente, ao qual damos o nome de Deus. Na obra da criação se diz, com muita propriedade, que diariamente Ele observava o que tinha feito dentro do conjunto. E via que era bom. Quando terminou a obra, a expressão chegou ao superlativo: era a grande sinfonia do universo: Deus viu que era tudo muito bom.
A natureza, com as leis que a regem, leva-nos a descobrir o segredo da harmonia e da segurança. A intervenção humana, principalmente com os resíduos da indústria, começou a poluir a natureza, conseqüentemente, a provocar desequilíbrios na ecologia. Temos agora dois pólos para conciliar: de um lado está a harmonia e a beleza da natureza e, de outro, estão as exigências das conquistas técnicas. Não podemos nem queremos renunciar a nenhum destes dados.
A solução evidentemente não está na volta às condições da natureza pura. Nossa cultura urbana, resultado tanto da inteligência como do crescimento populacional, não o permitiria. Ninguém está hoje sinceramente disposto a renunciar a todas as conquistas da técnica, tanto no transporte como na comunicação, tanto no cultivo da terra como na transformação dos produtos, tanto da medicina como nos serviços humanos... Com isto temos que acostumar-nos ao barulho e à poluição, até o nível do suportável.
Mas, nem por isso, a natureza estará definitivamente comprometida. As suas leis ainda continuam critério válido para pautar a ação humana. O problema está em conciliar estas leis, que reconhecemos sábias, com os avanços da civilização. O empenho pela ecologia tem evitado muitos estragos e tem preservado muitos valores da natureza para o bem da humanidade.
Algo semelhante acontece no plano mais amplo da segurança. Vencemos muitos empecilhos à vida humana, advindos da natureza, como o perigo de animais selvagens, de cobras venenosas, de mosquitos infectados etc. Descobrimos vacinas que nos previnem contra certas pestes e doenças. Vencemos os macróbios das florestas e os micróbios dos organismo vivos. Neste sentido adquirimos um âmbito de segurança, tanto externo como interno, ou seja, tanto contra ataques mortíferos de fora como contra alimentos prejudiciais.
Não conseguimos, porém, segurança em relação ao próprio homem. Por incrível que possa parecer, nosso inimigo hoje não é a natureza, não são os animais nem as intempéries. São os homens que devemos considerar como nosso próximo. Volta a famosa expressão do poeta romano: o homem é lobo para o homem. Em outras palavras, o homem despiu-se de sua humanidade em relação ao próximo para revestir-se da irracionalidade.
Neste plano voltamos à harmonia universal, agora aplicada à sociedade. S. Paulo compara-a ao organismo vivo, com muitos membros, na unidade de vida. Cada um tem sua função específica. Não é importante ser olho ou pé, mas ser corpo, com a consciência da necessidade e complementariedade de todos os membros. A igualdade fundamental, constituída pela dignidade pessoal, está na vida humana. A atividade, porém, é diferente e complementar. Cada um tem sua função própria. Se estiver no seu lugar, a sociedade estará segura. Se, ao invés, estiver fora de lugar próprio, estará estorvando e criando atritos.

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