sábado, 3 de janeiro de 2009

João Paulo II - Hoje e sempre

Por toda a Igreja, perpassa neste mês de outubro visível alegria pelo jubileu de prata do pontificado do Santo Padre João Paulo II. É sentimento de alegria familiar, este tipo de alegria que todos nós já experimentamos em nossas casas, quando nos reunimos ao redor de nossos pais, avós ou parentes próximos. Todos queremos abraçá-lo. O mundo inteiro quer abraçá-lo. A Igreja toda quer manifestar-lhe seu amor filial e sua incontida admiração. Como bispo e cardeal, tive o privilégio de sentir-me muito perto dele. Até mesmo na sua intimidade. Sua visita a Belo Horizonte, em 1º de julho de 1980, iniciou em mim um sentimento de admiração, que, num crescendo permanente, me levou a colocá-lo no pedestal do meu coração, não só para admirá-lo, mas também para transformá-lo num modelo a seguir e a tentar imitar. Mas, longe de mim pensar que o consegui: sua grandeza aumenta diariamente e eu me vejo muito pequeno diante dele.Aqui em Minas, nós estamos habituados a conviver com as montanhas. Quando delas nos distanciamos, nós as contemplamos na sua totalidade; mas, quando delas nos aproximamos, admiramos sua beleza e imponência e nos sentimos pequenos e insignificantes. Assim acontece quando, em Ouro Preto, contemplo o pico do Itacolomi ou, no Caraça, o nosso Caraça, olho o pico da Verruguinha ou o vulto do Gigante: admiro-lhes a grandiosidade e me sinto pequeno diante deles. E toda a Igreja sabe sobejamente que o nosso Papa é um gigante do Evangelho e um destaque notável na série de sumos pontífices de todos os tempos. Não há necessidade de recordar ou repetir as estatísticas do seu fecundo pontificado. Elas são por demais conhecidas. Lembremos as centenas de canonizações e beatificações; viagens, audiências particulares e públicas, criações de dioceses e nomeações de bispos; encíclicas sobre temas da atualidade os mais diversos, mensagens adaptadas a auditórios diferenciados, discursos em variadas línguas, por ele dominadas como nunca o foram por outro pontífice, antes dele; atuação serena e clara com orientação segura em intrincadas situações políticas internacionais, liderança no reto ecumenismo... enfim, neste montante extraordinário de atividades do ministério petrino temos que reconhecer que "Aquele que é, que era e que vem, o Todo-poderoso" (Apoc. 1,8) velou com especial carinho e sabedoria pela Igreja de hoje, que é semente da Igreja de amanhã. Esta terá que debruçar-se sobre os escritos do nosso Papa nos próximos decênios, para poder sorver neles as orientações para continuar sendo a "luz do mundo e o sal da terra".Foi talvez pensando no futuro da humanidade que o nosso Papa demonstrou especial carinho para com os jovens, dos quais recebeu espontânea resposta eivada de entusiasmo. O nosso saudoso Dom Lucas Moreira Neves, no seu livro "A Sarça Ardente", escreveu uma crônica, como era de seu estilo, muito viva e agradável, com o título: "Um ancião cativa os jovens", comentando quando mais de 600 mil jovens ouviram, aclamaram e se emocionaram, reunidos junto à torre Eiffel, em Paris, "o ancião trêmulo e trôpego, envelhecido antes do tempo no seu físico, embora indômito no seu espírito... esse líder ao qual os jovens se rendem... numa Paris estarrecida e incapaz de entender o que está vendo" (pág. 27). E Dom Lucas se pergunta: Qual o segredo dessa inexplicável liderança e fascinação que está na sua raiz? E responde: "o segredo está em duas coisas: no modo como se comporta com os jovens e os trata e, depois, no conteúdo que lhes transmite cada vez que a eles se dirige e lhes fala". Quando, na velha Gregoriana, com os mestres jesuítas, estudava a história da Igreja, chamou-me a atenção a observação de um deles que nos mostrava como a Divina Providência colocava no trono de Pedro a pessoa certa, embora os homens muitas vezes interferissem negativamente, contrariando os planos de Deus. Na longa série de pontífices romanos, pontilhada de santos, de mártires, de doutores, de missionários, em dois deles a posteridade observou uma grandiosidade excepcional. Leão I (440-461) é chamado da França, onde cumpria missão, para assumir o pontificado, numa conjuntura delicada, quando, progressivamente, o império no ocidente estava se esfacelando e a corrente maniqueísta contaminava o clero. No oriente pululavam as controvérsias teológicas, com crise monofisista, encabeçara pelo monge Êutiques. Os bárbaros conduzidos por Átila, tentavam invadir Roma e Leão I o deteve. Legou à Igreja 143 cartas, o Tomus ad Flavianum e cerca de 96 sermões homiléticos. A posteridade pasmou-se diante de sua personalidade gigantesca e o cognominou de Leão MAGNO.Gregório I (590-604), ainda jovem, foi prefeito de Roma. Convertido, transforma sua residência no monte Célio em mosteiro beneditino. Eleito papa, Roma está sendo dizimada pela peste e os Longobardos ameaçam a cidade eterna. Ele enfrenta e supera estes perigos, reorganiza a administração dos bens da Igreja, ampara e acolhe os pobre e inicia a missão ad gentes, enviando missionários à Britânia (Inglaterra). Com ampla atividade literária, escreveu numerosas cartas, 35 livros "de moralia in lob", o Liber regulae pastoralis, com atenta análise e descrição das virtudes a serem praticadas e vícios a serem evitados. Enfermo, continuou trabalhando e escrevendo e algumas homilias foram lidas em sua presença por um notário. Foram-nos conservadas 40 homilias sobre os evangelhos e 22 sobre Ezequiel, apresentando aos homens do seu tempo o difícil ideal da vida cristã. A posteridade foi justa, ao recordar sua atuação e o cognominou de MAGNO. E eu me pergunto: não estamos também nós diante de um pontífice MAGNO?
Cardeal Dom Serafim Fernandes de AraújoArcebispo da Arquidiocese de Belo Horizonte
http://www.arquidiocese-bh.org.br/artigo/artigo.asp?id=95

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